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segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Uma carta do EU do agora para o EU do futuro


Ei garota! 
Olha quantas coisas mudaram, você continua insistindo em abraçar o mundo com as pernas, mas, finalmente, aprendeu a importância de respirar nesse percurso. Sempre te observo quando você prende o ar na expectativa de parar o tempo, mas me orgulha em minutos depois você perceber que ainda não desenvolveu esse superpoder, mas o sentimento de fracasso não te preenche mais. 

Respira, garota, respira! 

O tempo. Olha como ele é traiçoeiro, aquela velha sensação de que foi ontem, mas na verdade foi há anos, também sei como isso funciona, é assustador, eu sei, mas olha em volta e percebe, ou melhor, reconhece tuas conquistas. 

Teus objetivos são diferentes dos de hoje, mas mudaram de acordo com o percurso, não foi falta de insistência, mas de senso. Às vezes colocamos algo na cabeça e insistimos, insistimos e simplesmente insistimos, nem percebemos que aquilo não faz sentido, apenas insistimos. Essa teimosia da gente cansa, maltrata e até enlouquece. 

Percebi que com os anos você aprendeu a questionar se realmente vale a pena a insistência, e não apenas questionar se insistiu de menos. Me conta: tá valendo a pena? 

Lembra do princípio: Respira, garota! 

Finalmente você aprendeu a controlar a ansiedade, aprendeu a driblar a sensação de que o mundo vai se despedaçar a qualquer momento. Era cansativa essa sensação, esse peso, lembra? As coisas parecem mais fluidas agora (no futuro), pelo menos, espero que sim, mas a leveza do tempo é uma conquista diária. 

Respira, garota, respira! 

Tenho orgulho de quem você se tornou, do que você conquistou, do seu legado, cada coisa tem o seu tempo e eu ainda estou aprendendo, mas você já incorporou esse ditado nos seus dias. Um dia de cada vez, lembra? 

O amanhã é tão distante, mas olha para você, chegou ai com alguns arranhões, mas muitas vitórias, você está onde eu desejo, trabalhou e alcançou, se reinventou, mantéu seus ideias, repensou, insistiu, e, principalmente, aprendeu a respirar. 

Respira, garota! 

Neyara Furtado Lopes

Carta desenvolvida na oficina de Escrita Criativa ministrada no Theatro José de Alencar

domingo, 30 de outubro de 2016

O Candidato Amigo do Povo - Confirma!


O assunto que invadiu as nossas vidas nesse mês foi o tal do segundo turno, as feituras do candidato A, as promessas do candidato B e a torcida do tanto faz, seja A, B, nulo, branco, ou sei lá, porque tanto faz. No começo do Séc XX um candidato amigo do povo foi eleito vereador de Fortaleza, um retirante que veio para a capital fugindo da seca de 1915 e que logo ganhou a simpatia local.

Nessa época eu sempre lembro dessa figura icônica, o candidato que chegou na capital e a família teve que vende-lo para poder ter como sustentar aquela nova vida. Um empresário americano fez questão de compra-lo, mas travesso como era o candidato fugiu e ficou perambulando pela cidade, conheceu escritores, fez amizade com a alta sociedade, virou a figura estimada de todas as rodas de conversa.

Uma bela dose de cachaça era sempre bem-vinda, o convite para aquele drink era indispensável. Todos os dias ele fazia o mesmo trajeto, passava pela praia, próximo ao Mercado dos Peixes e vinha andando até o centro, parava para bater um papo na Praça do Ferreira, ponto de encontro das figuras mais importantes da época, onde discutiam os assuntos mais polêmicos da cidade.

Amigos ele tinha em toda parte, dizem as más línguas que vários casamentos foram desfeitos por causa dele, era um paquerador e as damas estavam sempre dispostas a trocar um carinho com o candidato. Até que uma lei local foi imposta e todos os animais vistos no meio da rua iam ser apreendidos e o dono iria pagar uma multa, afinal a capital estava passando por uma limpeza.

Lutar contra aquela lei absurda fez com que ele fosse eleito o vereador de Fortaleza, figura tão importante que seu corpo foi embalsamado e exposto no Museu do Ceará. Detalhe que ele nunca foi candidato, mas como o voto era de papel, quem se importava. Celebridade ele se tornou e tão importante que era, um visitante do museu arrancou parte do seu corpinho para levar de lembrança.

Ah, devo ressaltar que a história é verídica e nenhuma virgula inventada, visite o Museu do Ceará que estará na sala vermelha o corpinho do Bode Ioió (animal), o nosso vereador eleito pelo voto manipulado. Fazendo a conexão rápida com a política atual: o tal amigo do povo continua sendo eleito trazendo um plano de governo egoísta, o povo continua sendo enganado e aceitando calado o que eles querem fazer com a gente, afinal, tanto faz, mas será mesmo que tanto faz?

#aLUTAcontinua

sexta-feira, 15 de julho de 2016

A Espera por Dex e Em (Um Dia) - 15 de Julho


Hoje é um dia saudosista, daqueles que anotamos na agenda para não esquecer o compromisso, não marcamos hora, ou lugar, apenas prometemos que todos os anos nos encontraríamos, trocaríamos um abraço, um tapinha nas costas, um sorriso e um resumo das pequenas novidades do cotidiano. Torço para que esses 365 dias que nos distanciou tenha trazido bons ventos, brisas de alívio e principalmente alguns sorrisos. 

Lembro da primeira vez que nos vimos, foi uma noite de bebedeira, comemorávamos a formatura, enfim estavam livres da universidade e a vida exigia que fosse dado mais um passo, provavelmente ambos percorreriam caminhos diferentes, mas o encontro estava marcado. Nos anos seguintes nos encontramos no mesmo dia, as vezes apenas um aparecia, as vezes a raiva tomava conta do momento, as vezes só a mágoa, mas sempre a certeza que aquele dia trazia algo especial.

Percebi que a vida nos distanciou dos sonhos, nos obrigou a trilhar caminhos que não estavam em nossos planos, as vezes fomos obrigados a tomar medidas drásticas, esquecer tudo e seguir, mas o nosso dia sempre se fez presente. Nosso encontro trazia um resumo do que tinha acontecido, as vezes por palavras, outras por cartas e até mesmo por uma avalanche de sentimentos, meu coração ficava apertado quando percebia que precisávamos nos ver mais, nos apoiar mais, nos compreender mais.

Os últimos encontros foram felizes, podíamos emoldura-los na parede da sala e apreciar sempre que possível. Tivemos um contra-tempo no final, foi uma barra, não acreditei, queria arrancar aquela parte das nossas vidas, mas não foi possível, mudamos de plano. Sabe, aprendi que por mais turbulento o caminho possa parecer, os nossos sonhos são possíveis se nunca desistirmos. E sabe aquela sensação de deslocamento, um dia acaba, todo mundo tem um lugar, por mais escondidinho que ele esteja, a gente sempre encontra. Dex, Em, sempre espero vocês nesse dia, um dia!

*Dex e Em são protagonistas do livro Um Dia

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Respirei, respirei e só vi amarras...


Outro dia sonhei que estava em uma casa branca, sofá branco, almofadas creme, retratos de sorrisos, janelas abertas, o sol invadia e chamava para a vida. Observava as pessoas circulando pela casa, a alegria era contagiante, as conversas eram leves e o ambiente fazia as risadas ecoarem por todos os lados. Uma mão estendida me fazia um convite para participar, me guiou para o jardim, a grama era verde, toalhas estendidas, livros abertos, mesas de pic-nic.

Atravessamos a rua, os vizinhos sorriam, os cachorros latiam, a mangueira deixava a água correr, estranho seria se alguém me dissesse que não estamos em um cenário de um filme. Dobrei no beco que separava duas casas, uma creme e outra laranja, entrei na segunda, lá a risada ainda era solta e o assunto era leve, me ofereceram um lugar para sentar e um pedaço de pão. Estava assustada, só queria saber o nome desse filme. Quer ficar? Espera, aqui não tem lugar para mim.

Eu tenho uma vida lá, minhas coisas, meu mundo, está tudo lá! Eu sei, não precisa repetir que eu só estou com medo, eu admito, mas é complicado cortar as amarras, estou paralisada, estou decepcionada comigo. Não é tão fácil assim, eu sei o que devo fazer, mas não consigo, estou petrificada e a raiva só cresce sem que eu consiga me mexer. Claro que eu quero ficar, quero muito, mas... para de me questionar, eu não sei o motivo, a razão, só sei que não posso, talvez não seja digna para isso, mas eu queria poder ficar, queria, de verdade.

Me levantei e sai de dentro da casa, lá também tinha um imenso gramado que dava para a rua, observei o movimento, as pessoas me cumprimentavam, eu respondia, algumas me perguntavam se eu ia ficar, eu dizia que estava pensando, outras diziam que ia ter show na próxima semana, caso eu ficasse, é talvez eu fosse ficar. Parecia tudo tão utópico, aquilo eram férias prontas para retornar para a vida real, aliás, vocês não possuem vida real? 

É uma questão de escolha, ou você entra de cabeça e tenta ser feliz, ou passa o resto da vida preso aos medos. É uma escolha, ou fica, ou vai, aqui, ou lá, é uma escolha, qualquer um pode faze-la. Respirei, olhei para o céu e respirei, fechei os olhos e respirei, olhei para a casa e respirei, respirei, respirei. A passos vagarosos retornei para a casa, meu lugar ainda estava vazio, sentei, respirei novamente, me ofereceram pão e apontaram para o recipiente de manteiga , passei. A conversa estava séria, decidiam algo, debatiam, argumentavam, gesticulavam, é talvez não seja tão utópico assim, talvez eu consiga, é talvez se eu tentar, eu consiga. Acordei. Amarrada.

bonne nuit, bonne chance

quarta-feira, 1 de junho de 2016

[Conto] As Lutas e Seus Personagens


Era mais uma aula de ânimos exaltados, Marina de pé retrucando as ofensas de Bia, aquela briga já estava se tornando particular. O objetivo era só discutir as leis brasileiras em caso de crime virtual, mais uma aula do curso de Direito que se apoderava de uma notícia verídica para deixar a situação mais real. O professor gostava de dividir a turma, a defesa e o ataque, todo futuro advogado deveria aprender a argumentar, principalmente quando a sua posição não era confortável.

Marina era ativista dos movimentos feministas, participava de marchas, atiçava lutas, debatia como ninguém, era uma leoa quando alguém questionava suas causas. Bia era o contrário, uma garota conservadora, defendia o tradicional, usava suas crenças como argumento, não calava quando alguém feria o que ela acreditava. A sala já estava acostumada a ver as discussões entre elas.

Naquele dia foi diferente, o professor trouxe o caso da menina que sofreu estupro coletivo para ser discutido em sala, o objetivo era debater sobre as leis que foram infringidas quando o vídeo do crime foi exposto na Internet, coincidentemente eles tinham acabado de estudar o assunto e o professor queria aproveitar para revisar a matéria, mas tudo saiu do controle.

Chorando Bia repetia que a única culpada era a garota, sempre é a mulher, ela sempre fazia algo para merecer o estupro. Marina estava com ódio, falava sobre a cultura do estupro e como a nossa sociedade estava afogada em teorias machistas. Bia chorando começou a dizer que a garota era drogada, gostava de orgias, era uma sem vergonha, "você é uma putinha". Marina já estava em pé gritando que aquilo não justificava, relatou diversos casos de estupros no trabalho, escola, igreja...

Bia estava fora de si, continuava repetindo "você merece isso", "você se ofereceu e está tendo o que merece". Atento o professor observava a discussão, reparou que Bia falava sozinha, o pensamento da garota estava perdido em suas lembranças, ela não pertencia mais aquela discussão. Quando Marina se calava era audível algumas ofensas em segunda pessoa, repetidas vezes, as lágrimas escorriam por seu rosto. Bia estava em choque, Marina não percebia e continuava discursando com todos os seus argumentos sobre aquela discussão que tinha se tornado pessoal.

Aos mais atentos era perceptível o que estava acontecendo, Bia é uma garota frágil, mas daquelas que te surpreende com a quantidade de traumas que ela aguenta calada, Marina era dura como uma rocha, mas era insensível a ponto de não perceber quem precisava de sua ajuda. Uma tinha o problema e a outra a força. O professor bateu com o apagador na mesa até todos se calarem, dispensou a turma e chamou Marina e Bia até sua mesa.

As garotas ainda estavam exaltadas, a amizade se restringia aos muros da faculdade, elas pensavam tão diferente que era impossível manter uma boa convência. Silêncio. Depois de uma longa pausa e muitas trocas de olhares questionadores o professor solicitou que as duas juntas fizessem uma redação sobre o tema discutido em sala, Marina ia tentar provar que a vítima não tem culpa e a Bia ia falar o quanto dolorido é o silêncio da dor. 

Toda causa precisava de uma dor, as lutas se tornam vazias quando não se sabe o real sentido da dor, assim como toda dor era mais dolorida quando não se achava força para lutar. Era importante que para cada bandeira levantada fosse verificado os dois lados, Marina precisava conhecer a dor de uma vítima de suas lutas, Bia precisava conhecer a luta provocada por sua dor.

Contrariada elas saíram da sala em silêncio, não combinaram nada sobre o trabalho, mas a reflexão sobre o motivo daquela redação já perturbava a relação das duas. Aliviado, o professor estava certo que tinha feito um bom trabalho, Bia ia conseguir desabafar e encontrar forças, Marina finalmente tinha encontrado um personagem para as suas lutas, agora suas discussões iam ganhar um novo brilho. Diversas vezes fechamos os olhos e entramos de cabeça em certas lutas, mas esquecemos de lutar pela dor e não só pela causa, a dor move a luta, mas a luta pode amenizar a dor em diversos momentos. 
[história e personagens fictícios]

bonne nuit, bonne chance

sábado, 5 de setembro de 2015

A Espera do Tempo Perdido


Acordei com um suspiro forte, olhei para os lados e fixei o olhar no teto repassando o que deveria fazer durante aquele dia. Fechei os olhos novamente e desejei que algo de mágico acontecesse, um telefonema, um e-mail, uma carta, um telegrama, qualquer uma das opções já seria revolucionária, queria apenas que uma delas chegasse. Depois de alguns segundos, tomada por um suspiro que buscava forças de onde quer que fosse, levantei, tomei um banho, preparei um café bem quente e parti.

Enfrentava mais um dia de salas de espera, pessoas ocupadas e um mundo mal humorado. Ser representante de medicamentos não foi uma escolha, só mais uma tentativa insana de achar a peça que faltava. No inicio foi calmo, não encaixava, mas era só mais uma onda a ser enfrentada. Depois o clima começou a ficar tempestuoso, as ondas quebravam cada vez mais fortes e eu começava a me afogar. Permanecia no fundo do mar, era o meu esconderijo, as ondas quebravam, a tempestade continuava, eu permanecia escondida no fundo do mar, sentia o turbilhão passando, mas nada podia me atingir, só permanecia paralisada, suspirando, suspirando. 

Sentada em um sofá, aguardando mais uma "brechinha" no horário de quem iria me atender, observava o relógio pendurado na parede oposta, cada minuto que passava sentia como se fosse um minuto perdido, um minuto sem ter feito algo que pudesse mudar aquela espera. Todos os dias escolhia atividades de escape para aqueles momentos, mas nada conseguia suprir aquela sensação de que o tempo estava se esvaindo e que eu não tinha coragem o suficiente para tomar uma atitude de verdade. Permanecia paralisada, apenas suspirando.

*personagens e história fictícia.

domingo, 8 de março de 2015

O Dia do "Nós podemos"


Hoje recebi felicitações por ser mulher. Hoje, 8 de março, comemoramos a data em que de certa forma simboliza o inicio da luta pelo direito igualitário de ser mulher. Somos mulheres e fim. Não somos nem menos, nem mais, somos apenas mulheres. Não, não quero ser lembrada como alguém frágil, ser parabenizada por ter a capacidade de ter filhos, ser ressaltada pela delicadeza, pela beleza, quero ser lembrada por ainda ser uma mulher, logo, um indivíduo, logo um ser igual ao outro.

Hoje é dia de levantar a bandeira e lutar por nossos direitos, direito de ser igual, de dizer ao mundo, que SIM eu posso, SIM eu sou capaz, SIM eu sou tão merecedora quanto você. Chega de dizer que os filhos não são bem educados, porque a mulher quer trabalhar fora. Chega de dizer que a culpa é da mulher, homem foi você que traiu, foi você que errou, assuma! Chega de aceitar que isso ou aquilo é coisa de homem, se nós queremos, nós podemos. Chega mulheres! Chega de baixar a cabeça para o mundo! Valorizem-se! Lutem!

bonne nuit, bonne chance

sábado, 16 de agosto de 2014

Detalhes de Uma Paisagem Invisível


Naquele dia o transito estava enlouquecedor, fazia 20 minutos que o ônibus não saia do canto, um trecho que eu fazia em 5 minutos no máximo. Tirei uma revista da bolsa e usei para sentar em cima, tinha um espacinho nos degraus da porta do meio onde eu poderia usar de assento. Fiquei observando o movimento na rua, as bicicletas passando, as motos usando a calçada de pista, as pessoas conversando.

Uma moça morena olhou para mim e sorriu, perguntou se podia sentar do meu lado e eu assenti com a cabeça. Ela usava um terninho com a marca de um colégio, devia trabalhar na parte administrativa de lá. Tirou um caderno brochura da bolsa e começou a folhear, achou o que tanto procurava e grifou algumas partes, talvez ela estivesse indo para a faculdade, devia fazer algum curso na área administrativa, talvez. Ela devia passar o dia trabalhando e a noite estudando, devia chegar tarde em casa, sem fome, cansada, um sacrifício visando bons frutos, talvez.

O ônibus andou um pouco e parou na frente de um beco, as casas eram todas iguais, estreitinhas, 2 andares, na parte de baixo uma porta após 3 degraus e uma janela, em cima um janelão. Elas eram coladinhas uma na outra, se diferenciavam pelas cores. No meio corria um filete de água vinda do esgoto, onde um bêbado fazia todo o esforço do mundo para pula-lo. A casa da esquina devia ser do rei do beco, ele tinha 2 casas coladinhas, a fachada e o piso estavam ajeitadinhos, no muro que dava para a avenida ele abriu uma lojinha, estava lotada de clientes.

Já fazia 45 minutos que eu estava ali, já dava pra ver que não era acidente, era apenas alguns carros que tinham fechado a via. Olhei pelo vidro e vi um homem andando de um lado a outro dentro de uma oficina, ela estava vazia, não tinha carro, e aparentemente fazia um tempo que não pegava algum tipo de serviço. O homem respirava forte, coçava a cabeça, andava de um lado a outro, parecia preocupado, devia ser o dono da oficina, e as coisas aparentemente não andavam bem, sem serviço, sem grana, o negócio ia mal das pernas, o que ele ia fazer?

Finalmente o ônibus voltou a andar e conseguiu sair daquele engarrafamento, levantei e fiquei encostada na porta até chegar na minha parada. A moça morena continuava sentada lendo e grifando, comecei a me perguntar se ela sempre pegava o ônibus comigo e eu nunca tinha reparado, ou se aquela oficina sempre esteve vazia, ou até mesmo se o rei do beco sempre foi o rei do beco. E tudo faz parte de uma paisagem invisível com um mundo de histórias e sonhos.

.neyara furtado

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Copa 2014, o Sábio da Atualidade.


Aprendemos que uma equipe é um grupo de pessoas que luta por um mesmo objetivo, que todos os integrantes devem ter pesos iguais, e que o processo não deve se basear em uma única pessoa. Ser considerado o melhor, não é garantia de sucesso, as vezes o excesso de confiança pode ser o seu pior inimigo.


Mais importante do que ter milhões de pessoas acreditando no seu potencial, é você acreditar que é capaz, porque você sabe que é capaz, e não porque os outros dizem que você é capaz. Se os outros insistem em dizer que você é pouco, prove que você é muito. Quando se sabe fazer algo, e se quer fazer algo, não importa se você esteja aqui ou ali, você continua sabendo. 

Pare de achar que transtornos psicológicos é apenas uma frescura moderna, o psicológico as vezes atrapalha bem mais que impossibilidades físicas. O seu sucesso não depende do trabalho do outro, você é tão capaz quanto ele. Aprenda que suas tristezas não são maiores que as tristezas alheias, ela é do tamanho que o seu dono acha que ela deve medir e sentir.

E o mais importante, aprendemos que futebol continua sendo apenas futebol, e que entre vitórias e derrotas, todos se divertiram.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

[Sábado Literário] I Folhetim - Tema Livre

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"Incentivar o consumo e a produção literária" foi com esse objetivo que o Sábado Literário nasceu, e é com esse objetivo que conseguiu dar mais um passo. No dia 17 de maio, realizamos a terceira edição do evento, e pela primeira vez conseguimos entregar gratuitamente o Folhetim, uma seleção de contos enviados pelo público. 

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Nessa edição o Folhetim tinha o tema livre, o que nos proporcionou algumas surpresas em diversos estilos, tivemos contos voltados para o público infantil, outros com uma linguagem mais subliminar, alguns com cenas eróticas, e outros bem informais. Diversos textos muito bem escritos, e de autores com diversas referencias, profissões e visões.

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Essa é uma forma bem simples de tentar divulgar os diversos talentos que temos escondidos por ai, a mesma forma utilizada por Machado de Assis, e que tal formato conseguiu abrir tantas portas para ele, e outros autores famosos. E esse o desejo do Sábado Literário, difundir a literatura, seja consumindo, seja produzindo.

*Quem quiser receber o Folhetim (últimos exemplares) gratuitamente em casa, é só enviar seu endereço para o email: neyara@gmail.com.

Participantes do III Sábado Literário.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Uma Medida de Achocolatado, Metade de Açúcar


Abri os olhos devagar, os primeiros raios de sol começavam a invadir o meu quarto, o calor já era intenso, minha cabeça latejava, meu corpo doía, tinha passado a noite em claro pensando no que tinha acontecido. Levantei relutante, fui até a pia do banheiro e lavei meu rosto, respirei fundo, molhei novamente meu rosto na tentativa de fazer com que aquela dor fosse embora.

Fui até a cozinha, peguei uma caneca no alto do armário, o dia ia ser longo, precisava colocar um pouco de açúcar no meu sangue. Abri a geladeira, peguei a caixa de leite, desnatado, tão aguado quanto a minha vida parecia naqueles últimos tempos. Abri a gaveta de talheres, peguei uma colher, para cada medida de achocolatado, metade de açúcar, uma dosagem perfeita para um dia errado.

Me encostei no balcão e comecei a tomar lentamente o conteúdo da caneca, fechei os olhos e fiz uma prece. Silenciosamente pedia um pouco de paz, precisava de uma dose de coragem e metade de discernimento, optar pelo certo e errado naquele momento, era optar entre a razão e o coração. Os dois exigiam urgência. Os dois tinham consequências. Abri os olhos e coloquei a caneca na pia, desejando que aquele achocolatado tivesse me dado a luz necessária para iniciar mais um dia. 

.neyara furtado

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Desafio - 101 Coisas em 1001 Dias


Sabe aquela lista de metas para o ano? Dessa vez organizei as metas alcançando outra. Sempre tive vontade de organizar a minha lista de 101 coisas em 1001 dias, mas sempre ficava com preguiça, ou não sabia o que escrever, então, aproveitando o clima de determinação que o começo de todo ano trás, convidei o boy (@FlávioFilhoo) e fizemos uma lista apenas, algumas metas minhas, outras deles, e as do casal. Assim nasce um incentivo para tentarmos alcançar todas as metas propostas. Aos poucos vou atualizando a lista e colocando o que for cumprido. ;)

Daisypath Vacation tickers


INÍCIO: 01/01/2014 - Quarta-feira
TERMINO: 28/09/2016 - Quarta-feira

Neyara - Em andamento
Flávio - Em andamento
Juntos - Em andamento
Concluído

  Estudos e Afins


1 - Terminar minha graduação em Hotelaria;
2 - Terminar minha pós-graduação em Marketing Digital;
3 - Começar meu mestrado na área de comunicação;
4 - Concluir o curso de Inglês;
5 - Aperfeiçoar o meu Espanhol;
6 - Começar o curso de Francês;
7 - Voltar a fazer curso de Japonês;
8 - Fazer curso de Assessoria de Imprensa;
9 - Fazer curso de Bolos Decorados;
10 - Fazer curso de Eventos;
11 - Fazer curso de Design;
12 - Fazer libras;
13 - Terminar o curso técnico de Reabilitação de dependentes químicos;
14 - Ir bem no meu TCC;
15 - Terminar minha graduação em Serviço Social;
16 - Começar a minha pós-graduação;
17 - Começar uma nova graduação em Ciências Sociais ou Historia;
18 - Voltar pro Português no IMPARH;
19 - Começar um curso de uma língua estrangeira;
20 - Procurar um curso de cruciverbalismo (arte de criar palavras cruzadas);
21 - Fazer um curso de Roadie;


 Viagens e Passeios


22 - Conhecer o México;
23 - Fazer um curso em outra cidade/país;
24 - Conhecer 32 municípios do Ceará (1/32);
25 - Visitar todos os museus de Fortaleza (0/28);
26 - Visitar todos os Centros Culturais de Fortaleza (0/7);
27 - Conhecer 10 cafeterias/brigaderias de Fortaleza (0/10);
28 - Ir ver um jogo do Palmeiras, na nova arena, no ano do centenário;
29 - Ir num show no Hangar 110 (SP);
30 - Ir num festival de música fora do estado;
31 - Ir num evento do UFC;


  Saúde e Beleza


32 - Passar 1 ano sem comprar esmaltes (4/12);
33 - Fazer qualquer tipo de exercício físico, 3 vezes por semana, durante 6 meses. (0/6);
34 - Dormir antes da meia-noite por 6 meses (0/6);
35 - Comer no mínimo 1 fruta por dia (não vale banana) por 6 meses (0/6);
36 - Experimentar um tipo de comida todo mês (0/32);
37 - Pesar 58kg;
38 - Começar a dançar, ou nadar, ou treinar Muay Thai;
39 - Passar 6 meses praticando um dos itens do 33;
40 - Correr uma maratona de 5km;
41 - Correr uma maratona de 10km;
42 - Fazer Check up anual (0/3);
43 - Voltar a treinar uma luta (Muay Thai/Jiu Jitsu);
44 - Passar pelo menos 6 meses treinando (0/6);
45 - Disputar um campeonato de Jiu Jitsu;
46 - Passar 6 meses sem beber refrigerante (0/6);


 Blog


47 - Fazer no mínimo 6 promoções no blog (2/6);
48 - Postar 3 vezes por semana no blog por 6 meses (0/6);
49 - Postar no mínimo 1 vez por mês no blog (0/32);


 Filmes, livros, música, etc.


50 - Organizar 10 eventos literários (4/10)
51 - Organizar o 2º Mochila Literária CE
52 - Concluir o projeto 52 livros, 52 semanas;
53 - Passar 1 ano sem comprar livros (0/12);
54 - Conseguir zerar minha estante (0/55);
55 - Assistir todos os filmes citados no livro Cinema - A lâmina que corta (0/59);
56 - Conhecer uma banda nova todo mês (0/32);
57 - Ir ao show do Leela
58 - Ir ao teatro uma vez por mês (0/32);
59 - Ir ao cinema uma vez por mês (0/32);
60 - Ir para um show uma vez por mês (0/32);
61 - Acompanhar uma série na TV desde o começo;
62 - Retornar o hábito da leitura;
63 - Ler um livro por mês (0/32);
64 - Completar a minha coleção de palavras cruzadas (0/30);
65 - Acompanhar os lançamentos dos discos ao longo do tempo;
66 - Rever todas as temporadas de Lost (0/6);


 Sonhos


67 - Terminar de escrever meus livros (0/2)
68 - Conseguir publicar os meus livros (0/2)
69 - Publicar 5 contos em antologias (0/5)
70 - Casar;
71 - Dar entrada em uma casa;
72 - Comprar meu carro;
73 - Abrir um restaurante;
74 - Produzir um show de uma banda que eu goste;


 Outros


75 - Sair no mínimo 1 vez por mês para fotografar (1/32);
76 - Participar de um projeto de Fotografia;
77 - Ter 15 correspondentes nacionais;
78 - Ter 5 correspondentes internacionais;
79 - Voltar a trocar cartas com a Laisa (0/32)
80 - Organizar um encontro com as meninas uma vez por mês (0/32)
81 - Organizar meu computador;
82 - Apreender a dirigir de verdade (já tenho CNH)
83 - Ser cúpido de alguém;
84 - Arranjar um emprego com CLT;
85 - Adotar duas cartinha dos correios no natal (0/2)
86 - Fazer minha primeira tatuagem;
87 - Assistir um jogo no estádio;
88 - Assistir um jogo da copa
89 - Sair uma vez por mês (0/32)
90 - Tirar minha CNH;
91 - Rever e reunir velhas amizades;
92 - Comprar uma camisa de banda por mês (0/32);
93 - Voltar a coleção de camisas de bandas;
94 - Aprender a tocar bateria;
95 - Ter a minha bateria;
96 - Encontrar uma satisfação pessoal;
97 - Se engajar em um projeto de produção musical
98 - Doar sangue 2 vezes por ano (0/6)
99 - Finalizar o meu quarto; (FINALMENTE!)
100 - Arranjar um estágio na área de Serviço Social.
101 -Ter força de vontade o suficiente (e paciência) para cumprir a lista.


E que os jogos comecem! HA HA HA

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A casa do Sr. DO RE MI.


- Alô?!
(silêncio)

5 minutos depois.

- Alô?!
- É da casa do Sr. DO RE MI?!
(Tum Tum Tum)

3 horas depois.

- Alô?!
(silêncio)

2 minutos depois.

- Alô?!
- É da casa do Sr. DO RE MI?! Aqui é do consultório...
(Tum Tum Tum)

Verifica o bina.
Retorna.

- Boa noite.
- Oi, você pode me dizer de onde fala, é que estão me ligando desse número.
- É do consultório do Dr. X, eu estava tentando confirmar a consulta de amanhã.
- Ah! Pode confirmar a minha consulta.
- Qual o seu nome?
- Y.
- Já estava confirmada... Ah desculpe Sr. Y, é que eu estava tentando confirmar a consulta do Sr. DO RE MI, que é depois do Sr. e por engano estava ligando para o seu telefone, mas não tava conseguindo falar.
- Ah, é que parecia um trote...
- ...
- ...
- A consulta ta confirmada e desculpe mais uma vez (risos).
- Até amanhã (risos).

Mães... quanta criatividade. 



Bonne nuit, bonne chance

domingo, 20 de outubro de 2013

O Garoto Magrelo de All Star Branco.


Há exatos 6 anos eu estava recebendo uma rosa vermelha sem troco de um garoto magrelo de All Star branco, um tanto desajeitado, confesso, mas fofo em todos os detalhes. Eu não conseguia acreditar que o príncipe encantado dos meus sonhos de adolescente realmente existia, e ele estava ali, na minha frente, diante dos meus olhos, o garoto magrelo com uma rosa vermelha na mão suada e o coração disparado. Descobri ele numa roda de música e noite estrelada, um saco de pipoca e uma companhia no ônibus, mas agora seis anos se passaram, e ele continua do meu lado, me levando pra escutar música, comer pipoca, passear de ônibus e principalmente, continua me abraçando, mas um abraço tão quentinho e apertado que eu continuo escutando o coração dele disparado. Obrigada por ser o bobo mais fofo de lindo do mundo todo. Obrigada por ser meu. TE AMO!

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

É Preciso se Despir Para Cuidar do que Importa


Chega um certo momento que é necessário retirar todos os curativos mal feitos para cuidar do corte, para não deixar que ele continue inflamando. É necessário tentar limpa-lo, mesmo que arda um pouco, ou muito, vai depender do quanto você aguenta. É preciso passar algum anti-séptico eficiente para ajudar na cicatrização, as vezes ele pode provocar um pouco de dor, ou até mesmo deixar uma tonalidade estranha, mas nada que não seja previsível, ou que o tempo não ajude a sarar. Pare e olhe para o corte por um certo tempo, você precisa encarar ele, mesmo que esteja feio, você precisa encarar ele de frente, você precisa aceitar que ele está ali, e precisa ser cuidado, ele precisa ser mostrado para o mundo. Chega um ponto que o corte não aguenta mais tanto curativo para tentar esconde-lo, é preciso se despir para cuidar do que importa, e assim tentar organizar, separar, e descartar aquilo que só faz mal... É preciso deixar o corte conhecer o mundo.
.neyara furtado
Bonne nuit, bonne chance

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O Gigante e sua Cadeira Branca


Ele entrou na sala e me lançou um sorriso sem sal, retribui e perguntei como ele estava. Ele não respondeu. Jogou alguns papeis em cima da mesa, puxou a cadeira branca e sentou na minha frente. Me encarou como se esperasse algo. Eu não disse nada. Ele se recostou na cadeira e continuou me olhando. Eu continuei sem dizer nada. Ele, enfim, me perguntou algo. Eu respondi e sorri. Ele me fez mais algumas perguntas casuais. Eu respondi a todas, sempre sorrindo. Ele, então, se calou e me olhou com um olhar de reprovação. 

Comecei a me sentir perdida, não estava entendendo aquele olhar de reprovação, parecia que eu tinha esquecido uma parte da nossa conversa. Ele continuou me olhando com um olhar de reprovação. Comecei a me sentir pequena na frente dele, como alguém que faz algo errado e está recebendo uma bronca. Ele começou a falar e fazer algumas observações com um tom de piada. Eu estava me sentindo cada vez pior, e ele agora era um gigante, que estava prestes a me esmagar com toda sua pompa sentado em sua cadeira branca. Enfim, ele se calou novamente e sorriu se divertindo  Eu sorri de vergonha, queria sumir dali. 

Ele se levantou, recolheu os papeis que estavam em cima da mesa e partiu. Continuei sentada, me sentindo um lixo, não entendia o que tinha acontecido, na minha cabeça tudo tinha corrido tão bem, mas para ele não tinha sido bem assim, não conseguia enxergar o momento em que ele tinha se transformado no gigante na sua pomposa cadeira branca, e eu na migalha que o cachorro dele tinha recusado. Me levantei para ir embora, me sentia incapaz de continuar, agora eu era a piada do fim do dia, como alguém que eu mal conhecia tinha aquele poder de me deixar tão mal. Bati a porta com tanta força, como quem deseja que o mundo simplesmente sumisse. // 
.neyara furtado

Bonne nuit, bonne chance

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Minha idade colorida - 24 anos


Quando eu tinha 10 anos achava que quando eu chegasse aos 24 anos já ia ter marido, filhos, casa própria, estabilidade em um emprego legal, já teria viajado metade do mundo e minha vida já estaria toda resolvida, e muito bem resolvida. Hoje completando esses tais 24 anos, vejo que to começando a viver agora, que agora que eu to trilhando esse caminho para essa "tal vida bem resolvida", que agora que eu to escolhendo minhas pedrinhas pra fazer um caminho seguro e bonito, e principalmente, não me sinto velha pra isso, estou no tempo certo, estou na hora certa de trilhar o meu caminho (apesar de terem me falado que eu já to no carito ¬¬). Sinto que vai ser um ano de transições, e como a idade sugere, espero que seja um ano colorido e feliz. Feliz aniversário pra mim! ;D

"Livre pra poder buscar o meu lugar ao sol"

domingo, 21 de abril de 2013

A menina sufocada e seu vestido lilás.


A menina parecia sufocar dentro daquele quarto, tudo o que ela mais queria era sair e mostrar seu vestido lilás para todos que passavam rindo do outro lado da rua. A menina alisava o vestido na esperança que aquela porta se abrisse, ou até mesmo a janela, pra finalmente ela conseguir respirar o ar puro de uma tarde de outono. Os dias passavam velozes, o tempo não tinha tempo a perder, mas a menina tinha todo o seu tempo sendo perdido. A menina ficava cada vez mais sufocada ali trancada, e seu vestido lilás cada vez mais amassado. Ela empurrava a janela, forçava a maçaneta da porta e nada. Cada vez mais desesperada a menina tentava sair dali, se jogava contra a porta, mas ela nem se mexia, tentava quebrar a janela, mas ela nem arranhava. A menina estava exausta, sufocada, derrotada, enlouquecendo naquele quarto fechado, começava a suspeitar que a culpa era do vestido escolhido, ou da sua total incapacidade de não saber abrir uma porta, ou talvez as pessoas simplesmente não gostassem dela. O que ela mais queria era poder sair e mostrar o seu vestido lilás para as pessoas que passavam rindo do outro lado da rua, respirar um pouco de ar puro de uma tarde de outono, mas ela já estava tão exausta...

.neyara furtado

quarta-feira, 20 de março de 2013

[Blogagem Coletiva] 1904


      Querido diário,
estou em pânico! Minha mãe me trancou dentro de um armário, estou com muito medo, não sei o que esta acontecendo, estou com fome, estou com muito calor, não consigo respirar direito... minha mãe me mandou ficar aqui até os homens maus irem embora, não sei quem são eles, ou o que eles estão fazendo aqui...

Acordei cedo como de costume, a Jô entrou no meu quarto pedindo para eu me apressar, ela estava nervosa, questionei o motivo e ela só disse que talvez meu pai recebesse visitas... Será que são esses homens? Desci rápido e vi minha mãe no sofá com um olhar assustado, ela se levantou, me deu um longo abraço e disse que não ia deixar nada de mal me acontecer, questionei ela sem conseguir entender o que estava acontecendo, ela só mandou eu me apressar pois talvez tivéssemos visitas mais tarde, não consegui perguntar mais nada, fiquei paralisada, eu devia ter perguntado mais, estou com medo desses homens... Estou em pânico!

Estava na cozinha tomando café, e escutei meu pai falando sobre uma notícia que tinha saído nos jornais para os empregados da casa, eles estavam revoltados com o governo, não consegui entender direito o que falavam, diziam algo sobre a aprovação de uma tal Lei de Vacinação Obrigatória* contra a varíola, sobre casas destruídas, sobre defender a honra de suas mulheres, e quanto mais eles falavam, mais furiosos eles ficavam. Não entendi como aquilo tudo tinha sentido, como uma vacina iria destruir as casas? Sera que aqueles homens tinham algo haver com isso? Será que iam destruir a casa? Será que eles iriam desonrar minha mãe e eu? Estou em pânico!

Faltava pouco pra hora do almoço, todos os empregados tinham ido para casa com a missão de defender as suas famílias, quando meu pai avistou homens se aproximando do  portão da casa, ele gritou para a mamãe me esconder, ela me agarrou pelos braços e subiu as escadarias correndo em pânico. Ela me trouxe até este armário onde guardo meu material escolar, ela me disse que eu precisava ficar aqui, calada, sem perguntas, que eu tinha que ficar aqui até ela voltar... Já passou tanto tempo e ela ainda não voltou, o que aconteceu? o que ta acontecendo? quem são eles?

*Devido a epidemia de varíola na capital do Rio de Janeiro, foi aprovada a Lei da Vacinação Obrigatória, onde brigadas sanitaristas acompanhadas de policiais invadiam as casas para vacinar a população a força, porém tinha um boato que a vacina fazia mal e tinha que ser aplicada nos órgãos genitais, um escândalo para a época. A população em pânico e desgostosos do governo, fizeram a Revolta da Vacina em novembro de 1904. 


Esse é um projeto da Poly, onde todos os blogueiros deveram postar no dia 20 de cada mês um post-diário referente ao ano sorteado aleatoriamente. Todas as postagens referentes a 1904 estão relacionadas AQUI. Participem! ;)

Bonne nuit, bonne chance

domingo, 24 de fevereiro de 2013

O barulho do mar acha até os mais perdidos.


Correr na praia sempre me ajudava a pensar com mais calma, organizar as ideias. Esses dias pareciam que tinham virado a minha vida de ponta-cabeça, passei de uma sequencia de dias corridos e estimulantes, para uma sequencia de dias iguais, com uma coleção de fatos sem importância, nada que me gerasse ansiedade para concluir algo. Apesar dos fones, eu ainda conseguia escutar o barulho das ondas e de alguns pássaros cantando baixinho, fazendo dueto com a música da J.Lo.

A maré estava alta, e o mar estava com uma tonalidade marrom devido as algas. O que mais me assustava é que a minha pastinha de sonhos ainda continuava lá, cheia de objetivos e desejos, mas parecia que eles estavam cada vez mais confusos, perdidos, ilegíveis, não estava conseguindo mais enxergar até o mais obvio. Mais a frente tinha um homem moreno, devia ter uns 30 anos mais ou menos, usava uma bermuda branca com uma camiseta laranja, em seu ombro direito dava pra ver uma parte de uma tatuagem, me parecia ser um dragão, talvez, não dava pra ver direito.

O homem brincava com seu labrador na beira do mar, o cão parecia fascinado com o vai-vem do mar, tentava a todo momento pegar as ondas que se diluíam em suas patinhas. Por mais que eu estivesse tentando, por mais que eu buscasse, parecia que sempre aparecia algo pra não me deixar continuar, parecia um quebra-cabeça com as peças certas, mas por algum motivo elas não conseguiam se encaixar, por algum motivo eu não conseguia mais nem enxergar a imagem que aquelas peças formavam. Sentei bem perto de onde aquele homem e seu labrador se divertiam, passei o resto da tarde observando aqueles dois, quando o sol já ia embora o cão sentou ao meu lado e ficou observando o mar, o homem fez o mesmo, nós três continuamos lá, em silêncio, buscando no mar a resposta e a coragem para achar o que estava perdido. 

Extra! Extra, Capsula de Banca ao som de Harlem Shake:

[Cola&Bora] Clube da Caixa Preta | Sociedade das Relíquias Literárias

Tá sentindo? Brisa de bons ventos, gostinho doce de retorno, cheirinho suave de quem está se reconectando ao que nunca deveria ter sido esqu...