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terça-feira, 31 de outubro de 2017

[Livro] Casos de Família - Ilana Casoy

casos de familia 2

Vou começar me justificando, apesar de não ser necessário, mas desde quando iniciei essa leitura algumas pessoas me olharam atravessado pelo conteúdo que o livro trazia. Antes de escolher a área de Comunicação, pensei em cursar Direito, trabalhar na área Penal, sempre achei extramente interessante a forma que os detalhes vão se encaixando até se desvendar um crime, os fatos que levaram os envolvidos a chegarem até ali, a forma que os profissionais trabalhavam para desenvolver uma linha de raciocínio que refutassem qualquer mentira.

Porém, com o tempo, percebi que nem tudo era justo e ético, dinheiro e um network poderoso poderia tornar qualquer culpado em inocente instantaneamente, além de diversos outros fatores que parecem estar acima de qualquer código penal, ou da realidade. Hoje, mais do que nunca, nossa justiça está cada vez mais desacreditada e os profissionais do meio precisam ter o estômago cada vez mais reforçado para ver essa enxurrada de absurdos. Definitivamente não tenho estômago preparado para isso, por isso, escolher cursar Publicidade & Propaganda foi a escolha mais acertada que eu poderia ter, o que não me impede de ler sobre investigações e juris. Blz? Blz.

Ilana Casoy é formada em administração e especialista em criminologia, se dedica a análise de perfis psicológicos de assassinos em série e crimes violentos, ganhou respeito no meio e hoje tem permissão para acompanhar alguns casos e colaborar na análise e construção desses perfis. Ilana é escritora e publicou diversas pesquisas sobre o assunto, colaborou em casos reais como o dos Richthofen e dos Nardoni, escreve para o Investigação Discovery e ajuda na construção de personagens para TV.

Resenhar o livro Casos de Família é excluir o lado técnico e apenas sentir, reviver a repercussão dos crimes, relembrar as inúmeras reportagens e especulações, trazer a tona o amargor de acompanhar casos que vão contra a própria família. É descobrir que todo lado podre, tem um lado mais podre ainda, aqueles detalhes e impressões que só quem acompanhou poderia descrever.

Iniciamos a leitura com o O Quinto Mandamento (honrar pai e mãe) - Caso Richthofen. Suzane planeja matar os pais com a ajuda do namorado Daniel e o cunhado Cristian, a herança e a liberdade são os motivos. Os três confessam o crime para a polícia ao serem confrontados, cooperam na reconstituição do assassinato e são condenados.


O que não vimos na TV é a total frieza que o caso foi levado pelos envolvidos, mesmo quando fingiam que não sabiam de nada, o choro sem lágrimas, o churrasco na casa após o assassinato, a preocupação desacerbada pelo dinheiro, a compra de bens, o aniversário no sítio, a diversão pela liberdade conseguida. A polícia conseguiu juntar cada momento de frieza de Suzane e pânico dos olhos dos irmãos Cravinhos para confrontar os suspeitos.

A reconstituição é o momento em que os irmãos Cravinhos percebem o tamanho da bobagem que fizeram e entram em desespero, já Suzane e Andreas (irmão mais novo dela) agem como se nada tivesse acontecido. Andreas é a grande incógnita do caso, ele é frio e se comporta como se nada afetasse ele, como se ele nem conhecesse aquelas pessoas que faleceram, mas deixa claro o tamanho do carinho que ele tem pela família Cravinhos e nada abalou a relação entre eles, nem mesmo o fato deles terem assassinado seus pais.

O julgamento acontece, a promotoria explora todas as leituras que se pode ter sobre o caso, o lado emocional e o puramente racional. A defesa, mesmo com a confissão, tenta provar que alguém influenciou alguém e que o casal eram péssimos pais, mesmo a polícia provando o contrário. Impressionante a falta de empatia do ciclo de convívio da família, talvez o relato mais empático tenha sido da moça que trabalhava na casa. Leitura finalizada com a sensação que ainda existe um lapso no caso, que a polícia nunca conseguiu provar.

A segunda parte traz o Caso Nardoni - A prova é a testemunha. A madrasta em um pico de estresse esgana a enteada e o pai joga a criança do sexto andar do Edifício London para tentar encobertar os maus tratos anteriores. Os acusados nunca confessaram o crime, o prédio não tinha câmeras e ninguém viu o que realmente aconteceu, por isso o livro traz apenas o julgamento, o depoimento dos profissionais que solucionaram o caso, relatando as pistas deixadas no local.

Uma fralda em um balde com água e sabão, um apartamento zoneado, uma folha desenhada em cima da cama, um absorvente usado no meio dos brinquedos, uma tesoura para cortar carnes, gotas de sangue, uma rede de proteção rasgada, uma pegada em cima da cama, tudo era pista para um caso que não tinha testemunhas. A cronologia dos fatos é a prova que nunca existiu uma terceira pessoa na cena do crime, a história do casal não batia com tudo o que tinha sido visto.

A promotoria trouxe diversos profissionais para provar ao juri a sua competência, dando credibilidade aos laudos apresentados, como o especialista em gotas de sangue (o único do Brasil no momento), ou a especialista em reagentes (uma das poucas pessoas que sabiam utilizar o produto). Todos os depoimentos foram contextualizados através de registros telefônicos e fotos do local do crime. A defensoria argumentou usando as falhas nos processos realizados pela polícia, exames que não possuem registro, falta de material para análise, contaminação na cena do crime e a falta de testemunha, afinal, a acusação foi feita baseada em suposições.

casos de famlia 1

Durante a leitura pesquisei o histórico de alguns nomes citados, alguns ganharam visibilidade após trabalharem no caso, ou já eram conhecidos por atuarem em casos de grande destaque, como o Podval, advogado de defesa do casal Nardoni, trabalhou também na defesa do médico Farah (matou e esquartejou a amante, recentemente se matou ao receber a notícia que iria voltar para a prisão).

A leitura é bastante densa e exige momentos de total desconexão, é preciso respirar e esquecer da imagem da Suzane chorando no enterro dos pais, ou do choro da Jatobá na entrevista para o Fantástico. É perturbador perceber que são crimes que acontecem rotineiramente, mas que a mídia só da visibilidade quando acontece em área nobre, com gente branca, com famílias relativamente estruturadas e bem aceitas pela sociedade. O criminoso fugiu do esteriótipo e se apresentou na roupagem de "gente do bem".

A DarkSide fez um trabalho editorial incrível, o livro está magnífico, o cuidado com cada detalhe, o moleskine com a letra e desenhos da Ilana mostrando o que ela sentiu em cada momento, as fotos e os registros anexados aos casos, a capa em alusão ao caderno de anotações, tudo está fantástico. Quero mais DarkSide, quero muito mais!

⏳ Hoje completa 15 anos do Caso Richthofen.

sábado, 26 de março de 2016

[Cinema] Donnie Darko

Donnie Darko é o tipo de filme que exige que o público procure informações externas para compreender toda a sua complexidade. Confesso que minha cabeça se resumia a dúvidas quando terminei de assistir o filme, tinha achado a história confusa e lenta, mas após pesquisar e entender o que cada elemento significava o enredo ganhou outra dimensão, o que me despertou a vontade de ler o livro (o que o filme foi inspirado e o que foi inspirado no filme) e conferir se todas essas explicações ficam claras, ou ainda mais confusas.

O primeiro detalhe que chamou atenção foi a técnica utilizada na composição da imagem, apesar de ser um filme de 2001, o enredo se passa em 1988 e visualmente ele parece ter sido gravado em 1980, a câmera utilizada, a lente, a iluminação, tudo remete a filmes produzidos naquela época, o figurino e o cenário se tornam apenas um detalhe na ambientação. A trilha sonora é outro ponto alto da produção, as músicas foram meticulosamente escolhidas para retratar a época, os grandes hits e a melancolia se faz presente em cada nota. 

O enredo relata a vida de Donnie Darko, um adolescente problemático com sintomas de esquizofrenia. O garoto com problemas de sonambulismo percorre a cidade na madrugada de 02 de outubro de 1988 guiado por um coelho imaginário, momento exato em que a turbina de um avião misterioso cai do céu e vai parar na cama de Donnie, fato que vai mudar os próximos 28 dias, 06 horas, 42 minutos e 12 segundos, momento exato que o universo acaba.

A relação de Donnie com o coelho Frank vai se estreitando, mensagens sobre o futuro são relatadas e a cidade começa a ser palco de diversos dramas inusitados, a escola que é inundada, o palestrante que mantem um calabouço de pedofilia em casa, o revolver no quarto dos pais, a garota fugitiva que acaba se apaixonando por Donnie. Tudo contribui para que o garoto cumpra a missão antes que o tempo se esgote, mandar a turbina de volta para o Universo Real.

Para rolar a explicação tem que rolar alguns spoiler.

O filme começa mostrando um pouco sobre a personalidade de Donnie e seus problemas, na madrugada do dia 02 de outubro de 1988 a turbina de um avião desconhecido cai em cima de sua cama, seria fatal se o coelho Frank não tivesse chamado ele a tempo para dar uma volta no campo de golfe em seu momento de sonambulismo. A turbina é o objeto, a primeira evidência da criação de um Universo Tangente, uma espécie de universo paralelo, mas que não acontece simultaneamente com o Universo Real, é apenas uma dobra no tempo, a quarta dimensão. O Universo Tangente não dura muito tempo, a tendência é que ele entre em colapso surgindo um buraco negro, quando isso acontece ele pode destruir o nosso Universo Real


O tempo descrito pelo coelho, 28 dias, 06 horas, 42 minutos e 12 segundos, é a duração que o Universo Tangente vai existir, por isso ele cita a destruição do universo, mas Donnie entende a destruição do todo e não apenas da dobra do tempo. Donnie é o receptor, o escolhido para guiar o objeto, a turbina do avião, de volta ao Universo Real, pois como existe a duplicidade do objeto no Universo Tangente pode ocasionar o colapso. A turbina que cai no dia 02 de outubro de 1988, é a mesma turbina que cai do avião no dia 30 de outubro de 1988, ou seja, no dia 02 de outubro de 1988 a turbina que está caindo é a mesma que está no avião estacionado no aeroporto, existindo assim a duplicidade do objeto.

O coelho é o garoto que Donnie mata no final do filme, quando alguém ligado ao receptor morre no Universo Tangente, ele vira o morto manipulado que vai orientar e proteger o receptor para que ele cumpra sua missão de mandar o objeto de volta ao Universo Real. A fantasia de coelho macabro é apenas a fantasia que Frank utilizava na hora que foi morto, assim como o seu olho machucado é o local que o tiro acertou. Assim como o morto manipulado, todos os vivos que estão ligados ao receptor vão ajuda-lo a mandar o objeto de volta ao Universo Real de forma inconscientemente.


Recapitulando a história: Frank salva Donnie de ter morrido esmagado pela turbina; a professora Karen ajuda Gretchen, a garota novata, a sentar junto de Donnie; Frank incentiva Donnie a inundar a escola fazendo com que no dia seguinte Donnie acompanhe Gretchen até em casa; Donnie e Gretchen se apaixonam e começam a namorar

Frank fala sobre a viagem que podemos fazer no tempo; Kenneth, o professor de física, faz uma breve explicação sobre a viagem no tempo e empresta o livro "A filosofia da viagem no tempo" escrito pela freira Roberta Sparrow (que também foi uma receptora), a Vovó Morte; Donnie percebe que tudo o que está sendo relatado no livro é o que está acontecendo com ele, fazendo com que ele escreva uma carta para a Vovó Morte relatando a sua experiência.


Donnie discute com Jim Cunningham, um palestrante de sua escola; Frank incentiva Donnie a colocar fogo na casa de Jim, fazendo com que os bombeiros encontrem um calabouço da pedofilia em seu porão; a professora Karen fala sobre a "porta da adega" para Donnie; a coreografa da irmã de Donnie vai ao tribunal defender Jim, fazendo com que a mãe de Donnie a substitua no torneio fora da cidade; Donnie organiza uma festa em casa, hora ideal para entregar a carta a Vovó Morte.

A casa da Vovó Morte possui uma porta de adega; Donnie e Gretchen são surpreendidos por dois garotos com facas nas mãos; durante a luta Gretchen é jogada para o meio da estrada e um carro a atropela; Donnie desesperado mata o motorista com um tiro no olho; o motorista é um garoto chamado Frank, fantasiado de coelho; a mãe de Donnie está em um avião passando pela dobra do tempo exatamente quando o portal se abre, fazendo com que a turbina seja retirada do Universo Tangente e retorne ao Universo Real.


Resumindo: Donnie precisava ter se apaixonado por Gretchen, para poder matar Frank, para que ele retornasse como o morto manipulado e ajuda-se ele a guiar o objeto de volta. Assim como era necessário fazer com que a mãe de Donnie substitui-se a coreografa e adianta-se o horário do voo para chegar mais cedo em casa, fazendo com que o objeto passasse pela dobra no tempo certo.

Após o objeto retornar ao Universo Real o tempo volta e estamos novamente em 2 de outubro de 1988, o Universo Real que estava pausado retorna a andar, o receptor, Donnie, lembra exatamente do que aconteceu, mas o restante dos personagens possuem apenas sentimentos e atos involuntários que remetem ao que aconteceu, como o Frank ainda vivo passando a mão pelo olho que foi atingido pelo tiro. A Vovó Morte continua esperando a carta de Donnie que nunca foi entregue.


Ufa! Agora QUASE tudo faz sentido, ainda não entendi a necessidade de ter a mãe de Donnie dentro do avião, já que ela pegou um voo comercial e as companhias aéreas escolhem os horários e rotas através de estudos e pesquisas, e não pela necessidade de um passageiro de chegar em tal hora em tal lugar, como acontece com os táxis, por exemplo. O fato de Donnie ser esquizofrênico deixa a dúvida do que é real e o que é imaginário, mas na versão do diretor entende-se que a explicação correta é a dos universos e da dobra no tempo, mas quando Donnie escolhe a morte significa que ele não fugiria da repetição dos fatos, não teria como fazer diferente, ou seja, os elementos continuariam aparecendo para guia-lo resultando na morte de FrankGretchen, então o Universo Tangente perderia o sentido.

O livro "A filosofia da viagem no tempo" é baseado em uma história real, o filme foi baseado nesse livro e atualmente a Editora DarkSide publicou uma nova versão com o roteiro original do cineasta Richard Kelly e depoimentos do elenco. Aliás essa história é uma grande incógnita, nada é certo, tudo é confuso, só resta a vontade de mergulhar de cabeça para tentar descobrir cada vez mais. 

[Cola&Bora] Clube da Caixa Preta | Sociedade das Relíquias Literárias

Tá sentindo? Brisa de bons ventos, gostinho doce de retorno, cheirinho suave de quem está se reconectando ao que nunca deveria ter sido esqu...