quarta-feira, 1 de junho de 2016

[Conto] As Lutas e Seus Personagens


Era mais uma aula de ânimos exaltados, Marina de pé retrucando as ofensas de Bia, aquela briga já estava se tornando particular. O objetivo era só discutir as leis brasileiras em caso de crime virtual, mais uma aula do curso de Direito que se apoderava de uma notícia verídica para deixar a situação mais real. O professor gostava de dividir a turma, a defesa e o ataque, todo futuro advogado deveria aprender a argumentar, principalmente quando a sua posição não era confortável.

Marina era ativista dos movimentos feministas, participava de marchas, atiçava lutas, debatia como ninguém, era uma leoa quando alguém questionava suas causas. Bia era o contrário, uma garota conservadora, defendia o tradicional, usava suas crenças como argumento, não calava quando alguém feria o que ela acreditava. A sala já estava acostumada a ver as discussões entre elas.

Naquele dia foi diferente, o professor trouxe o caso da menina que sofreu estupro coletivo para ser discutido em sala, o objetivo era debater sobre as leis que foram infringidas quando o vídeo do crime foi exposto na Internet, coincidentemente eles tinham acabado de estudar o assunto e o professor queria aproveitar para revisar a matéria, mas tudo saiu do controle.

Chorando Bia repetia que a única culpada era a garota, sempre é a mulher, ela sempre fazia algo para merecer o estupro. Marina estava com ódio, falava sobre a cultura do estupro e como a nossa sociedade estava afogada em teorias machistas. Bia chorando começou a dizer que a garota era drogada, gostava de orgias, era uma sem vergonha, "você é uma putinha". Marina já estava em pé gritando que aquilo não justificava, relatou diversos casos de estupros no trabalho, escola, igreja...

Bia estava fora de si, continuava repetindo "você merece isso", "você se ofereceu e está tendo o que merece". Atento o professor observava a discussão, reparou que Bia falava sozinha, o pensamento da garota estava perdido em suas lembranças, ela não pertencia mais aquela discussão. Quando Marina se calava era audível algumas ofensas em segunda pessoa, repetidas vezes, as lágrimas escorriam por seu rosto. Bia estava em choque, Marina não percebia e continuava discursando com todos os seus argumentos sobre aquela discussão que tinha se tornado pessoal.

Aos mais atentos era perceptível o que estava acontecendo, Bia é uma garota frágil, mas daquelas que te surpreende com a quantidade de traumas que ela aguenta calada, Marina era dura como uma rocha, mas era insensível a ponto de não perceber quem precisava de sua ajuda. Uma tinha o problema e a outra a força. O professor bateu com o apagador na mesa até todos se calarem, dispensou a turma e chamou Marina e Bia até sua mesa.

As garotas ainda estavam exaltadas, a amizade se restringia aos muros da faculdade, elas pensavam tão diferente que era impossível manter uma boa convência. Silêncio. Depois de uma longa pausa e muitas trocas de olhares questionadores o professor solicitou que as duas juntas fizessem uma redação sobre o tema discutido em sala, Marina ia tentar provar que a vítima não tem culpa e a Bia ia falar o quanto dolorido é o silêncio da dor. 

Toda causa precisava de uma dor, as lutas se tornam vazias quando não se sabe o real sentido da dor, assim como toda dor era mais dolorida quando não se achava força para lutar. Era importante que para cada bandeira levantada fosse verificado os dois lados, Marina precisava conhecer a dor de uma vítima de suas lutas, Bia precisava conhecer a luta provocada por sua dor.

Contrariada elas saíram da sala em silêncio, não combinaram nada sobre o trabalho, mas a reflexão sobre o motivo daquela redação já perturbava a relação das duas. Aliviado, o professor estava certo que tinha feito um bom trabalho, Bia ia conseguir desabafar e encontrar forças, Marina finalmente tinha encontrado um personagem para as suas lutas, agora suas discussões iam ganhar um novo brilho. Diversas vezes fechamos os olhos e entramos de cabeça em certas lutas, mas esquecemos de lutar pela dor e não só pela causa, a dor move a luta, mas a luta pode amenizar a dor em diversos momentos. 
[história e personagens fictícios]

bonne nuit, bonne chance

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