sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

[Cinema] Que Horas Ela Volta?


Após tantas indicações e prêmios recebidos, eu tinha que me render e dar uma chance para que o longa Que Horas Ela Volta? me conquista-se também. Confesso que o ritmo em que a história é contada e o enquadramento escolhido não me agradam, fico aflita quando o foco é em um objeto qualquer e o diálogo acontece próximo daquele ponto, aflição bem vinda em cenas de emoção, porém mal usadas quando a sensação de aflição é substituída por vazio.

O ritmo é lento, quase parando, falas pausadas e a sonolência assumindo o comando, MAS o enredo te leva a refletir sobre a relação "patrão x empregado" que é tão comentada devido as mudanças que a lei está sofrendo. Logo no inicio do filme aparece Fabinho questionando Val sobre a hora que a mãe dele iria voltar, Val carinhosamente explica que a Barbara precisa trabalhar para trazer mais conforto ao filho e que estaria em casa a noite. No finalzinho do filme, Val que deixou sua filha Jéssica em Pernambuco para ir trabalhar em São Paulo, escuta que a filha fazia o mesmo questionamento ao pai sobre a mãe e escutava que Val precisava trabalhar para trazer mais conforto a filha.


Independente de classe social é possível perceber a relação se repetindo, o papel da mãe sendo desconstruído para tentar proporcionar algo melhor aos filhos, a ausência se tornando presente quando a necessidade imediata é o carinho. Achei sensacional os diálogos que deram nome ao filme, a relação que se repetia, a ausência que permanecia e o vazio que tentava ser preenchido, porém o que chamou atenção no filme foram os diversos questionamentos referentes a relação "patrão x empregado" que o filme sutilmente aborda.

Val é tratada como se fosse da família, o carinho é reciproco, mas no decorrer das cenas e dos diálogos percebemos que não é bem assim. Algumas cenas deixam claro que ela não possui horário definido, ela apenas precisa estar a postos para servir. Suas falas não são escutadas, muitas vezes são abafadas com ordens e reclamações. Ela sempre é tratada com um ar de pena, seu carinho é recebido com falsidade, seus sonhos não são levados a sério, seus desejos são ignorados. O seu lugar é bastante claro na casa, não pode isso ou aquilo, até mesmo algumas comidas são só para o patrão.


Quando Jéssica chega temos mais sinais de que Val nunca foi da família, ela é vista com interesse por seu patrão, o sonho da menina de passar no vestibular vira piada para Barbara, a aproximação de Fabinho com a garota é repudiado por todos da casa, afinal, ela é só a "filha da empregada". Em diversos momentos fazemos um rápido link com os escravos, a maneira que eles eram tratados, aquela sútil forma de oprimir e desqualificar quem trabalha dentro de casa, mas sem esquecer de deixar bem claro que é como se fosse da "família".

A cena que a Val entra na piscina de seus patrões pela primeira vez é libertador, a sensação de ter aquele espaço tão próximo, mas não poder usufruir por simplesmente não ser o seu lugar, é quebrar as correntes da sua opressão. Outra cena magnifica é o conjunto de xícaras que a Val leva para tomar café com a Jéssica, algo tão simples, mas regado de significado para o contexto, o marco de um recomeço, de uma liberdade. Alias, o filme usou brilhantemente as metáforas, carregando de significados cenas simples como um abraço.


Ah, o filme conta a história de Val, uma pernambucana que foi para São Paulo trabalhar na casa de Barbara. Há 10 anos não vê sua filha Jéssica, mas a menina resolve passar um tempo com a mãe para tentar um dos vestibulares mais concorridos do pais. As duas dividem o quartinho que a Val fica na casa de seus patrões, mas a menina não se conforma com a humilhação que sua mãe é submetida.

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