sábado, 21 de março de 2015

A mesma história, o mesmo programa, dois julgamentos


Há dois anos fiz algumas postagens sobre o programa BBB, sou uma apaixonada confessa de reality shows, comentando sobre o paralelo do fato X que tinha acontecido dentro da casa e a resposta que a sociedade tinha dado para o acontecimento. A confirmação de uma sociedade machista e intolerante, que ao ser questionada nega o seu preconceito, mas ao ser confrontada com um fato real demonstra toda a sua irracionalidade. Logo depois falei sobre a importância desse tipo de programa para estudos antropológicos, não que eles retratassem o cotidiano real da população, mas provocasse uma reação verdadeira e rica para ser estudada.

Confesso que estudar o comportamento do público diante de tais programas de massa é uma paixão, ver como a reação vai mudando e se reconstruindo ao longo dos anos é fascinante, sempre que posso leio artigos sobre. Atualmente temos alguns casos clássicos de como tais programas representam a mudança de comportamento que a sociedade vem passando, vou usar de exemplo o BBB, assim como usei há dois anos.

Em 2007 o programa trazia um triângulo amoroso, um homem que mantinha um relacionamento com uma mulher no confinamento, mas que traia ela com outra participante. Ele relatava que gostava das duas e que não conseguia decidir com quem ele queria ficar, por enquanto, ele continuava mantendo o relacionamento com as duas. A população reagiu tendo pena da "namorada", crucificando a "amante" e achando que ele era o maior galã do mundo, afinal o público também estava apaixonado por ele.

Em 2015 o triângulo amoroso se repete, um homem mantem um relacionamento com uma mulher, ele arranja outra assim que a oficial é eliminada da casa e reclama que na verdade gosta das duas e não sabe quem escolher. O público já reage de maneira diferente, as mulheres são as vitimas apaixonadas e ele é um grande cafajeste. A mesma história, o mesmo programa, julgamentos diferentes. 

Entre a exibição desses dois programas o país teve algumas reviravoltas na luta pela igualdade de direitos como a ampliação da Lei Maria da Penha, garantia da licença maternidade por 6 meses, punição pela divulgação indevida da nudez, campanhas de amamentação e parto humanizado, aprovação da lei contra o Feminicídio, mulheres entrando para a história por serem as primeiras a ocuparem cargos que eram apenas exercidos por homens, a luta ampliou e ganhou voz.

Uma simples comparação feita a partir de um programa sem importância, te faz lembrar que essa alteração da rotulação dos personagens que o público fez, é o mais simples reflexo da mudança de posição que o papel da mulher está tendo na sociedade. A mulher está deixando de ser a culpada das mazelas do mundo, e o homem começa a ganhar a culpa que é de direito. Simples. A luta só está começando e deve ser ampliada, ganhar cada vez mais voz e mudar a rotulação de seus personagens. 

bonne nuit, bonne chance

Um comentário:

  1. Uma coisa que parece não ter mudado é o fato das mulheres verem que o sujeito é um cafajeste e continuarem apaixonadas por ele!

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